15.11.06

 

No tugúrio de Vítor P. ou chez Arlindo (RPS)

Uma aparelhagem hi-fi - aparentemente modesta, mas moderna - e um receptor de tv, écran panorâmico, destoam do bricabraque que enche a sala. Encostada a uma parede, a mesa de refeições onde se acumula alguma louça usada, sendo o número de copos bem superior ao de pratos. Umas garrafas vazias e uma ou outra lata, também vazias, de alimentos em conserva compõem um quadro que só intriga pela presença de uns quatro saca-rolhas de aspecto velho - ferrugentos, alguns - que jazem a um canto da mesa.

Um sofá grande, largo, com tecido original escondido por um pano de cobertura, chama pelo visitante. Este não ousa sentar-se nas diversas poltronas disponíveis, algumas colocadas em plena zona de circulação. Sem que Arlindo nada diga, o visitante percebe que estão ali para que ele e só ele repouse o seu pesado corpo. Espalhado, também, mas estrategicamente colocado ao lado ou nas proximidades das poltronas, diverso mobiliário de apoio. Uma peça destoa: uma pequena estrutura (uma mesa?) revestida a fórmica. Em todo o caso, está ali, como as outras, para o servir: Arlindo exige conforto e, dos comandos ao maço de cigarrilhas, dum livro ao isqueiro, do copo à garrafa que lhe faz companhia, tem tudo à mão. O esforço do intelecto não permite o cansaço do físico. É ali (e no catre que, obviamente, não visitei) que ele dá forma ao pensamento, produzindo as mais brilhantes mensagens, reflexões e pensamentos. Algumas são logo dali enviadas aos amigos, outras são partilhadas mais tarde.

A exigência de comodidade salta à vista noutro pormenor. Para manter a aparelhagem de som a um nível ideal, o móvel que a suporta foi colocado sobre uma mesa baixa. O importante é que os comandos estejam à altura dos olhos. Junto à aparelhagem, acumulam-se diversos cd's, invariavelmente de música clássica ou jazz. A um canto, junto à porta (aberta) que dá para a varanda, numa pequena mesa, repousa um tabuleiro de xadrez, com as suas 32 peças alinhadas. Junto à porta da entrada, uma pequena estante acumula livros antigos, em número superior ao da sua lotação razoável. Aliás, a acumulação de livros é uma realidade evidente, logo no pequeno, mas acolhedor, hall de entrada, para onde dão várias portas revestidas a madeira e a espelhos que transmitem uma sensação de maior espaço, mas não deixam de remeter para um estilo "night-club anos 70".

É numa pequena mesa deste hall que Arlindo, estava eu já de saída, acaba por encontrar, numa pilha de livros, aquele que me quer devolver. Dessa pilha cai um volume antigo que prende a minha atenção. Trata-se de uma edição antiga dos Livros do Brasil, Colecção Vida Quotidiana, O Vaticano. O autor é um tal Jean Jacques Thierry, sobre quem ainda não me dei ao trabalho de pesquisar. O livro leva-nos os bastidores e introduz-nos os jogos de poder na Cidade Santa, com o relato de episódios "secretos" da sucessão de Pio IX por Leão XIII, em 1878. É um excelente livro, estou a acabá-lo.

Uma escada de madeira escura, em caracol, leva-nos ao piso superior, onde uma única divisão ocupa quase toda a área do inferior. O tecto é inclinado como o de um sótão, mas tem altura. A quase toda a volta, encostam-se sucessivas estantes que carregam mais e mais livros. Muitos mais acumulam-se em caixotes, desarrumados pelo chão. Ter-me-ia perdido, não fosse a urgência da partida de xadrez.

Descemos. A minha estratégia inicial, bastante defensiva, parece surpreendê-lo e exigir-lhe alguma concentração. Sabedor de quanto lhe custa uma derrota, esforço-me por me concentrar minimamente e depressa fico com a sensação de que tenho o trabalho facilitado. Por causa da vantagem de um peão e um bispo e também porque ele se levanta amiúde para mudar de cd. Presumo-o desconcentrado, mas é puro engano meu. De súbito, em três movimentos que me parecem inócuos, saca-me a raínha e fico fragilizado. Não são necessários muitos mais lances para dar cabo da minha defesa (que eu julgava inexpugnável ou, no mínimo, bastante sólida) e consumar o xeque-mate.
Recusei a desforra que ele, por solércia, sugeriu com ar prazenteiro, no fito único de se aproveitar da minha desmoralização e vencer de novo.

Não lhe levei a mal. Porque, como já ouvi dizer ao meu (nosso) amigo Funes, citando o meu (nosso) amigo Zé, ou Zekez: Que posso fazer? Arlindo do Rego é meu amigo...

Comments:
Gostei, mais do que o habitual, de ler esta sua prosa, rps!
Bom dia:)
 
Alguma vez pensaste em escrever um livro?

Acho que o devias fazer!
 
Parabéns, RPS, por esta notável peça literária. É candidata a post do ano. O visado perdoar-me-à a deselegante inconfidência que vou fazer, mas não resisto à tentação de repoduzir para a blogosfera um sms, entretanto recebido, em que Arlindo do Rego se pronunciou sobre este texto: «O diabólico post é tão cirúrgico que até arrepia. O diacho parece um vídeo-gravador raciocinante»...
 
é verdade, bela posta!

quase consegui sentir o cheiro do tugúrio de Vítor P. (ou Arlindo)!!
 
Até me apetece bater palmas, RPS.
Como Você escreve tão bem quando se esmera. É só querer.
Ter um amigo, é ser um homem rico.
Ter um amigo culto é ser muito, muito privilegiado.
Ter um amigo que é culto e joga bem xadrez, é do outro mundo!
Parabéns.
 
Armado de formoso engenho, o robusto talento de RPS produz cirúrgicas observações, suavizadas por cortesia e graça.

Em verdade vos digo: nesta floresta de (auto) enganos e alheamentos, são sempre os outros quem melhor nos conhece – e (co)move ? Como é o caso…

Para ti, RPS, fica um obrigado e obrigatório Arlindo do Rego... até ao próximo Xeque-Mate !... :)
 
os amigos inspiram-nos!!
(mas aquela jogada... sacou-te a Regina!! imperdoável!)
 
Se não tivesse por hábito não deixar em blog nenhum por onde passo comentários do género "grande post!", escreveria aqui: grande post!
Assim, limito-me a escrever: belo post!
 
Lindo !
 
Magnífico post. Dos melhores que li por cá.
 
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