16.6.06

 

Espanha 82 (RPS)



A caminho de Espanha, o escrete passou por cá, para um estágio. Insuportável a euforia à volta dos brasileiros e a colagem dos jornalistas nacionais aos nossos irmãos... Pela TV e rádios passavam jornalistas brasileiros em série. Falavam de uma super-equipa, apesar de dois nomes muito contestados: Valdir Peres, o guarda-redes, e Serginho, o ponta-de-lança. O Mundial mostraria que não estavam, de facto, ao nível dos restantes.
Lembro-me de ter começado a ver o Brasil-URSS a pensar deixa cá ver se eles são assim tão bons... Os primeiros 45 minutos mostraram logo que não - eram um bluff. De tudo quanto se dizia, confirmou-se apenas a má qualidade do guarda-redes, com um monumental frango que deixava os soviéticos (uma equipa simpática e de qualidade, que assentava nos ucranianos do Dínamo de Kiev) a ganhar por 1-0.

Começou a segunda parte e tudo mudou. Vi, então, a super-equipa de que se falava. Vi, provavelmente, o melhor futebol que alguma vez vi. Classe pura, técnica, beleza, jogadas estonteantes, golos fora do comum. Como os dois marcados nesse jogo à URSS, por Sócrates e Éder. Em Espanha, o Brasil marcou 15 golos. Uns oito-dez, pelo menos, foram golos de levantar estádios. Parecia que não sabiam fazer coisas normais...
Valdir Peres; Leandro, Óscar, Luisinho e Júnior; Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates; Serginho e Éder. Era este o onze-base. Valdir Peres e Serginho eram, de facto, muito fracos. E faltava um extremo-direito. Paulo Isidoro era o homem, suplente pronto a entrar. Mas... quem haveria Telé Santana de tirar da equipa? Não havia quem tirar...
Recordo que terminado o Brasil-URSS liguei o 390384. Ou seria já o 3750384? Não sei ao certo. Em todo o caso, perguntei ao meu amigo Zé: viste esta merda, pá? Ele tinha visto e, como eu, estava banzado.

Como, apesar das preferências e antipatias que tenho, à partida, por determinadas selecções, sou, nos Mundiais, acima de tudo, pelo bom futebol, comecei a torcer pelo Brasil. Fizeram mais dois grandes jogos - Escócia e Nova Zelândia - com goleadas e chegaram à segunda fase. Juntaram-se, então, no mesmo grupo as minhas três selecções preferidas naquele momento: o Brasil, pela qualidade do futebol, a Argentina, porque sim, e a Itália, equipa com que simpatizava desde o Mundial anterior e que tinha vários jogadores que me enchiam as medidas, como Antognoni, Tardeli, Cabrini, Scirea e Altobelli.
A Argentina era uma equipa em baixa e Maradona falhara rotundamente. Os argentinos perderam com a Itália e com o Brasil. Estas duas selecções iriam, assim, lutar pelo lugar na final. Quem vencesse ia lá. Foi a Itália e foi justo. Porque tinha uma grande equipa e porque o Brasil jogou com uma sobranceria que o matou. Sobranceiro-mor: Júnior, culpado único no terceiro golo de Paolo Rossi e da Itália. Naquele jogo, talvez só Falcão não merecesse ser eliminado. Jogou que fez impressão. Era um grande jogador, como Éder, Leandro e, claro, os incontornáveis Zico e Sócrates.

Na final, exultei com a exibição de Itália (infelizmente sem Antognoni, lesionado) e com a vitória sobre a Alemanha, por 3-1. Na minha memória - e na de muitos outros, certamente - estão duas imagens: Tardeli a festejar, fora de si, o golo que marcou, e Sandro Pertini, o presidente italiano, com oitenta e tal anos, festejando euforicamente cada golo, ao lado do Chanceler alemão, Helmut Schmidt, e do Rei Juan Carlos.
O Mundial de Espanha foi aquele que mais acompanhei. Presumo mesmo que vi todos os jogos. Vi-os e vivi-os. Também tinha tempo. Melhor: não tinha, mas não me apetecia mesmo estudar. Falhei a entrada para a Universidade, mas que importância tem isso se vi o melhor Mundial de sempre?

Comments:
Foi o Mundial de que vi mais jogos. Estava em período de exames na Faculdade e intervalava o marranço para ver os jogos. Na primeira fase fiquei siderado com o quadrado mágico do Brasil: Falcão, Zico, Sócrates, Cerezzo. E na frente o ponta esquerda Éder. Futebol deslumbrante, que continuou na 2º fase, com 3-1 à Argentina. Entretanto a Itália, que era a mesma de há quatro anos, com uns retoques e o mesmo treinador ofensivo, Enzo Bearzot, entrou a cambalear, com três empates na primeira fase e uma qualificação à rasca. Depois ganharam 2-1 à Argentina (a 2ª fase era disputada em quatro grupos de três) e foram jogar com o Brasil. A meio do jogo dei por mim a puxar pela Itália, comandada pelo extremo Bruno Conti, um dos melhores jogadores que vi jogar e que apareceu em grande forma nesse mundial. Perante um Brasil sobranceiro, com apenas Falcão ao seu nível, a Itália foi melhor nesse jogo, embrora não tivesse melhor equipa que o Brasil. Paolo Rossi, um ponta de lança apenas "bonzinho" (estilo Nuno Gomes) marcou três golos e outros tantos viria a marcar nos jogos seguintes (2-0 à Polónia, e 3-1 à Alemanha na final). A Polónia fcou em terceiro, ainda com Lato (já careca e com mais oito anos do que em 74 mas a correr como um cavalo), Boniek, grande e conflituoso ponta de lança (que viria a tirar uma Taça das Taças ao FC Porto marcando o 2-1 da final de 1984, quando jogava na Juventus) e o Keeper Mlycnarczik (também ele ligado à história do FC Porto, mas aí por bons motivos: foi o guarda-redes das primeiras vitórias na Taça dos Campeões e na Taça Intercontinental). A França de Platini, Tigana e Giresse perdeu uma dramática meia-final com a Alemanha, fazendo 3-3 com desempate em penaltyes. Alemanha chegou à final à custa da defesa e do ponta de lança Karl-Heinz Rumennige, mesmo a jogar meio aleijado. O melhor guarda-redes do mundial terá sido o russo Dassaev, o único ídolo futebolistico que conheci ao Funes (além do Caló, mas esse é no gozo). Se não foi o melhor mundial de sempre, como escreveu o RPS, andou lá perto.
 
RPS,
É assim mesmo: a universidade espera...e não azeda!
Desse "mundial" também eu me lembro.
 
E o jogo França-Alemanha???...eu nesse mundial estava a torcer pela França, ainda parti um pêndulo do candeeiro por causa de um penalty falhado, até parecia que era francês!...
 
Deste mundial só me lembro do Naranjito...e nesse ano fui obrigada a fazer a quarta classe!
 
Ha por ai muito boa gente que nao sabe o que e o naranjito!!!
 
"Presumo mesmo que vi todos os jogos. Vi-os e vivi-os."

ora porra, também gostava de estar a ver os jogos deste mundial...
maldita sporttv!
 
"Classe pura, técnica, beleza, jogadas estonteantes, golos fora do comum"

imagino:))))))))))
fiquei estonteada com tanto palavreado:)))))))))))

jocas maradas de mundiais
 
Só me lembro dessa laranjinha!
Era pequenina na altura...quer dizer agora não sou mto maior, era uma criança!
 
Já venho tarde, mas ainda aqui deixo, "for the record", as minhas lembranças de 82:
1. Foi o primeiro Mundial em que senti que faltava uma selecção: a nossa. Os espanhois até tinham pensado em pôr-nos a jogar em Vigo, mais perto era impossível, e sonhei que fosse possíver ir até lá e ver algum jogo. Mas nós não quisemos. Fizemos uma qualificação vergonhosa e fomos eliminados pela Irlanda do Norte, selecção meio tosca que apresentou em Espanha o jogador mais velho (o guarda redes Pat Jennings) e o mais novo o prodígio Norman Whiteside, estrela do Man. United pré Alex Ferguson;
2. Não sou muito dado a estados de alma, mas hoje confesso que, "no momento", torci pelos lado errados ( e vencedores) nos jogos mais memoráveis do Mundial: O Brasil-Itália e o França- Alemanha.
3.Quando o Brasil chegou à Portela e um joralista brasileiro perguntou a Valdir Peres se achava que fosse o melhor guarda redes do Mundo, abri a boca de espanto. Não fazia a mínima ideia de Valdir era bom ou não, mas o melhor do Mundo não era de certeza. Aliás o frango do primeiro jogo criou-lhe uma fama de pior guarda redes do Mundo que também não merecia.
O Brasil de 82 foi seguramente uma das duas ou três melhores equipas que vi jogar até hoje. Tinha 9 extraordinários jogadores mais o guarda redes e mais Serginho. Serginho era um moço alto e espadaúdo e era o artilheiro do campeonato do Brasil pelo Santos. Na selecção, era suplente de um jovem e extraordinário ponta de lança chamado Careca. Ora Careca partiu a perna mesmo antes do Mundial e Serginho fez os jogos todos e tornou-se o jogador mais discutido do Mundo.Mas não foi por Serginho que o Brasil perdeu a Copa!
Jogo após jogo, o Brasil ia vencendo e convencendo mesmo aqueles, como eu, que embirravam naquela atmosfera de "já está" e na cobertura da RTP, a competir em nacionalismo e disparate com os brasileiros. Em cada jogo sempre golos extraordinários.Dei comigo a pensar: e se um dia o Brasil precisar de um golo apenas e não de um golo extraordinário? Enganei-me - contra a Itália o Brasil fez dois golos extraordinários e não chegou. Durante o jogo, visto no Café Avis entre os meus livros de estudo, fui progressivamente torcendo mais pela Itália, que realizou exibição portentosa e humilde e fiquei feliz com mais uma demonstração de que no futebol não há vencedores antecipados.
O França Alemanha foi ainda mais dramático. A França tinha a melhor equipa de sempre (!),era um regalo vê-los jogar e confesso que sempre tive uma certa admiração pela Alemanha, pela sua disciplina táctica e o seu empenho no jogo. Desde que o árbitro apita para o início e até que o jogo acabe, o futebol joga-se até ao limite. Quando a isto se junto "jeitinho" são campeões. Quando não, vão à final...
O jogo foi equilibrado, a França a jogar melhor, mas a RFA, que tinha o melhor jogador, Rumennige no banco, lesionado.Acabou 1-1 e seguiu-se o prolongamento em que a França começou melhou e chegou a 3-1. Pelo meio um dos lances mais polémicos no Mundial. Batiston, defesa direito da França, isola-se em jogada de contra-ataque e só, perante Schumacer, devia-lhe a boa que, lentamente, sairia ligeiramente ao lado enquanto que o guarda redes, certamente a pensar que ia ser golo, lhe acertava em cheio. Uma das mais brutais entrada que vi em Mundiais, que levou o pobre Batiston directamente para o hospital.O árbitro, certamente atarantado, esqueceu-se de marcar o penalty. Até aqui, eu era pela França ! Rumennige entrou quando a bola foi ao centro depois do 3-1 e era uma última jogada desesperada para os cerca de 10 minutos que faltavam: via-se que não estava bem e ainda mancava. Não importava: marcou um grande golo de calcanhar e deu à equipa um suplemento de alma que a levou ao empate e à vitória nos penalties par meu gáudio na altura e agora, confesso, alguma vergonha...
PS A imagem do "vechio" Sandro Pertini celebrando os golos da Itália na final é certamente un ícone dos nossos dias e vai muito para além da história dos Mundiais.A identificação com o povo e o respeito que merecia fizeram com que um gesto que poderia parecer de sobranceria fosse aceite como genuíno, mesmo por Helmut Kohl ou Juan Carlos. É por isso que não me resigno a ter Cavaco como presidente: olha-se para ele e é completamente impossível de aquela cena se ter passado com ele
 
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