21.10.05

 

A propósito de um post que caiu mal por aí... (RPS)

Há três dias, neste post, colocava aqui uma questão (ou questões) para a qual (ou quais) nunca obtive, em trinta anos - desde miúdo, portanto - uma resposta satisfatória. E a questão é saber a razão que leva os retornados a dizerem permanentemente que preferiam Angola ou Moçambique à "Metrópole".
Nos retornados de Angola isso é particularmente notório. Incensam Angola e mal dizem a vida que tiveram e têm por cá (já "levaram" com dois ou três retornados a falarem sobre esses tempos?...). O certo é que por cá ficaram e por cá continuam, em contradição com o desejo manifestado no discurso.

O post provocou reacções ofendidas. Por exemplo, o meu amigo JCS - que é um dos nossos, como podem ver ali na coluna da esquerda, e não escreve nada aqui há meses... - até se deu ao trabalho de fazer um longo comment. E insinua que eu sou racista!!! Uma desfaçatez que a amizade perdoa.
A maior parte das reacções surgiu, contudo, através de outros meios. Mais directos. Incluindo a de uma amiga, retornada no útero materno.

Nunca pretendi ofender ninguém. Tenho família que fugiu de Angola em 75. Foi terrível para muita gente, para muitas famílias. Pelo que apreendi na altura e sei hoje, o Estado português, na época, não lhes prestou lá o apoio que deveria. Abandonou-os, mesmo. Mas isso é uma questão que têm de colocar aos responsavéis políticos de então. Basicamente, militares barbudos, alguns comunistas, muitos revolucionários e oficiais-generais, como Rosa Coutinho, Vasco Gonçalves e Costa Gomes. E outros de quem não conhecemos os nomes.

Tenho, contudo, a ideia - e a convicção - de que, por cá, os retornados foram na generalidade bem acolhidos. Pelo Estado e pelas pessoas em geral. Aliás, a maioria e a sua descendência está por aí em situação idêntica à dos que já cá estavam e respectivas descendências. Dir-me-ão que conhecem um caso X e outro Y diferentes. Provavelmente, há casos desses. Como os há de retornados que, não necessitando de nada, se fizeram e beneficiaram de toda a prebenda.

Nos meus dez-onze anos de idade, senti-me solidário com esta gente que fugia da guerra. Entretanto, no Verão Quente de 75, começava a falar-se da possibilidade de, por cá, eclodir também uma guerra civil. Nunca ouvi familiares e amigos dizerem que teríamos de fugir. Mas pensei: para onde irão fugir agora os retornados?...

Há uns anos, li, na revista Pública, uma excelente reportagem com "o mais velho português de Angola". Era um tipo com quase 90 anos. Tinha nascido lá, por volta de 1910. O seu avô tinha ido para Angola na primeira metade do século XIX.
O homem relatava a história da sua vida. Em 74 ou 75, quando rebentaram a sério as hostilidades em Angola, desfez a casa, carregou carros e camionetas e rumou, da cidade onde vivia, a caminho de Luanda, para se pirar com a família. Chegado a meio do percurso, de muitas centenas de quilómetros e milhares de perigos, parou o carro e pensou: vou fugir para onde? Porquê? Esta é a minha terra! Esta é a terra que eu gosto!
Voltou para trás com a família e ficou. Hoje terá perto de cem anos. Ou já morreu - na terra onde nasceu e que sempre amou. E onde foi enterrado pelos seus familiares.
Não tenho dúvidas de que este velhote amava mesmo de Angola.
O resto é cheap-talk.

Comments:
Tal como esse velho Português em Angola, vivi muitos anos na Damaia e na Amadora. Recordo dias felizes por essas bandas. Entretanto mudei de casa. Será que deixei de amar a Amadora e a Damaia? Isto até parece uma pergunta para a revista Maria.
Mas RPS, fico satisfeito por saber que pontualmente, com cores e pêlos, consegues picar o povo o suficiente para escrever. Bem hajas.
Aquele abraço

JCS
 
Conversas de retornados e de tropas da guerra de Africa (sobretudo, os alferes)são intoleráveis.

Invariavelmente, falam das putas pretas ("as putas das pretas são as melhores: aquela sucção vaginal...") que foderam, como se tivessem tido um contacto imediato do 3º grau...

Sempre a mesma verborreia

Cá, os retornados, tiveram que se agarrar ao IARN e aos supermercados - e esporrar-se menos...pelo menos em "Coitus Mode"...

O pior é que sou amigo de quase todos - e a minha família tem-nos aos magotes.

Também, falo com um bocadinho de inveja...
 
Caro JCS...

Diz-me o que hei-de fazer para te motivares a voltar a postar. És injusto por nos privar do teu acinte.

E deixa-te estar em Azeitão, que foi um belíssima opção.

Abraço.
 
Raúl,...

... em relação ao que foi dito aqui, apenas tenho algo a dizer:

cada qual "entende" as coisas como lhe dá jeito!

E, por vezes, dá um certo jeito "ver" para lá do que foi dito ou escrito! Temos um pretexto para libertar frustrações!...

Na verdade, nunca estive nas ex-colónias e confesso que África... nunca foi um destino que me atraísse.

Portanto, corro o risco de estar a falar sem conhecimento de causa, mas foi algo que também, por vezes, pensei: "Se aquilo lá era assim TÃO melhor do que cá, porque não voltas para lá?"

Mas compreendo que haja uma mágoa enorme dentro do coração de quem perdeu tudo de uma vida e teve que recomeçar outra vida num país onde a maior oferta é a solidariedade.

Tal como o Raúl, sentir comentários destes a crescerem dentro de mim, não faz de mim racista nem menos solidária com os outros, que tantas vezes me olharam como "portuguesa de segunda" e que para mim sempre foram, acima de tudo, portugueses!!!

Beijitos e... nem pense mais nisso! ;o)

J. (The Crazy-One)
 
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Sem comentários, a ilitracia continua conforme a encontrei quando cheguei a este belo País de burricos e leiteiros!!!
 
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